Foto: Camila Almeida

Por que falar de desenvolvimento integral agora?

Por Fernanda F. Zanelli

Toda crise tem o poder de nos lembrar uma verdade irrefutável: dependemos uns dos outros. Mais do que isso, fazer-nos lembrar que o maior legado da humanidade, o conhecimento, é fruto desta interdependência entre nós e tudo que coexiste no planeta. Paulo Freire já nos dizia em sua obra que não há educação sem mundo. Ela acontece justamente no movimento de uma trajetória bem pouco previsível, a rota da história. Cada vida presente na Terra é um testemunho novo, e a educação se dá no encontro entre os diversos pontos de vista grafados pela realidade que bate à porta.


Ao considerar o entrelaçamento entre educação e vida, estamos falando de propostas educativas construídas no diálogo com os educandos e mediadas pelo correr do mundo, onde qualquer tempo é oportunidade de aprender e ensinar.


O contexto atual, uma pandemia mundial causada pelo Coronavírus, suscita uma série de desafios para vários setores da sociedade, inclusive a educação. Alguns novos, outros já bem antigos, porém todos dilatados pelo novo cenário. Em tempos de quarentena, uma questão já muito debatida no campo ganha novos significados: afinal, em que medida a educação pode ocorrer fora da sala de aula? Educação Integral é diferente de educação em tempo integral?


A escola, embora seja uma instituição chave para a educação, não é o único espaço onde é possível aprender. O conceito de Educação Integral trabalhado pelo Itaú Social e outros parceiros há alguns anos indica a necessidade de uma concepção educacional que conte com diferentes tempos, espaços e conteúdos. Esta tríade, que será explorada a seguir, é a base para o desenvolvimento de crianças e adolescentes de forma integrada.


Políticas públicas de educação – articuladas à assistência, cultura, moradia, saúde etc. –, assim como iniciativas da sociedade civil – como organizações sociais, arranjos locais, grupos informais –, são fundamentais para garantir o desenvolvimento como um direito de todos.


Nesse processo em que a educação acontece no encontro com a vida, professores e alunos, educadores e educandos perguntam, respondem, debatem e problematizam acerca do comum que os atravessa.

Por mais contraditório que pareça, o (des)envolvimento depende da relação com o outro para gerar autonomia. Autonomia de ser e ler o mundo com a mesma peculiaridade que marca a experiência de cada um de nós nesse nosso planeta.


Boa leitura!

Fernanda F. Zanelli atua em produção de conhecimento na área de Comunicação do Itaú Social. Mestranda em Ciência da Informação (ECA-USP), possui especialização em Globalização e Cultura e Gestão de Políticas Culturais.


Afinal, o que é Educação Integral e como essa ideia se articula com os dias atuais?

As escolas estão fechadas e toda a sociedade se mobiliza para pensar novas formas de aprendizagem para aqueles que precisam dar sequência ao seu percurso formativo em tempo de quarentena. Momentos como esse nos convidam a pensar ainda mais sobre a singularidade de cada criança e adolescente, mas, ao mesmo tempo, nos convocam a inaugurar práticas educativas que dialoguem com as necessidades, os interesses e os objetivos dos alunos e das comunidades.

Não se trata da substituição das escolas por aparatos tecnológicos, nem da simples troca do professor por um vídeo, mas de agirmos a favor de uma concepção de educação que precisa responder aos desafios do mundo contemporâneo e, assim, articular os diversos recursos, instituições, agentes educativos para uma formação crítica, capaz de lidar com o cenário de incertezas em que estamos inseridos.


E essa jornada, de pensar a educação a partir do desenvolvimento integral, envolve três importantes pilares: espaços, conteúdos e tempos.

Quando se fala em educação, a escola é a primeira coisa que surge no imaginário. Natural, poucas vezes refletimos sobre outros espaços que compõem o saber. Mas, se olharmos bem, mesmo entre os muros da escola, diferentes mundos convivem através da bagagem de vida de cada aluno, educador. E se espiarmos para além dos muros, vamos ver praças, ruas e o trabalho de organizações sociais. Indo mais longe, é possível lembrar daquele dia no museu, no parque e até daquele trecho de música. Com tantas referências, fica fácil perceber que a educação não cabe em um lugar só, por isso ela se vale da diversidade de atores e lugares para construir a experiência de aprender.


Para que cada aluno esteja realmente interessado em desvelar o mundo e descobrir a si mesmo, os conteúdos de ensino-aprendizagem precisam fazer sentido. Ou seja, precisam estabelecer um diálogo muito próximo com a realidade e os saberes dos educandos. Assim, a pluralidade de linguagens, temáticas e formatos é essencial para tornar mais dinâmica e mais efetiva a promoção de atividades que visam o desenvolvimento intelectual, físico, emocional, social e cultural de crianças e adolescentes




Assim como a educação transcende os espaços, o tempo da aprendizagem não termina quando bate o sinal da escola. Cada um de nós tem seu ritmo para ler um livro, chegar no resultado de uma fórmula ou montar um quebra-cabeça. Apesar disso, políticas públicas que visam ampliar o tempo na escola são fundamentais para reforçar a importância de oferecermos mais horas de aprendizagem criativa e articulada aos diversos espaços às crianças, aos adolescentes e aos jovens, principalmente quando consideramos que a maior parte da população tem pouco acesso a atividades artísticas, culturais, esportivas e de lazer, que são fundamentais para o desenvolvimento integral.

Desenvolvimento integral como um direito


A busca pela equidade social passa por políticas públicas e mobilizações da sociedade civil, necessárias para identificarmos o acesso à educação de qualidade e o desenvolvimento pleno como direitos previstos na Constituição. Algumas iniciativas atuam com esse fim, veja três exemplos:

Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

Define o conjunto de aprendizagens essenciais para alunos da Educação Básica pública ou privada, ajudando a superar fragmentações das políticas educacionais, contribuindo para a garantia dos direitos dos estudantes do país e para o desenvolvimento pleno da cidadania, em diálogo direto com a educação integral. Confira as 10 competências gerais da BNCC, listadas pelo Movimento pela base Nacional Comum, que vão desde o pensamento crítico até a responsabilidade e cidadania.


Fonte: Movimento pela Base Nacional Comum

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Os 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), foram criados para que, até 2030, as comunidades de todo o mundo sejam mais justas e prósperas. O ODS 4 preocupa-se em assegurar a educação básica de qualidade de forma inclusiva e equitativa. Já o ODS 17 reforça a necessidade de fomentar recursos para o alcance das metas, inclusive para consolidação de políticas e programas voltados para o desenvolvimento integral.



Fonte: PNUD Brasil

Plano Nacional de Educação

Criado em 2014, prevê metas que devem ser cumpridas no prazo de 10 anos para garantir esforços em prol da educação. Na meta 6, estabelece-se a necessidade de: “oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% (vinte e cinco por cento) dos(as) alunos(as) da Educação Básica”. Já a meta 7 se refere à “qualidade da educação básica, em todas as suas modalidades”.


Fonte: Plano Nacional de Educação


Tecnologia: possibilidades e limites

O debate sobre a aprendizagem remota já é um grande desafio em nosso país, a começar pela desigualdade de acesso aos dispositivos de comunicação e tecnologia. Com o cenário da pandemia esse quadro se agrava, uma vez que medidas urgentes são necessárias para dar continuidade às atividades educacionais. Quais os reflexos desse cenário nas redes de educação? De que forma a tecnologia pode ser uma aliada?


Veja o que os especialistas José Brito, gerente do Canal Futura, e Paula Carolei, coordenadora do curso de Design Educacional, da Unifesp, têm a dizer sobre as oportunidades e os limites da tecnologia em tempos de quarentena.


A importância da família

Por tudo que já foi colocado sobre a importância do contexto e dos saberes dos alunos para a Educação Integral, a família se destaca como um importante agente educativo não só para o desenvolvimento, de maneira mais ampla, como também para melhorar o desempenho escolar, o engajamento e a permanência na escola.



Apesar disso, os desafios para promover a conexão entre família, comunidade e escola seguem como um entrave para que essa aproximação de fato aconteça. Nesse cenário de quarentena, muitas unidades de ensino estão pressionadas a superar as dificuldades e colocar em prática novos canais de relacionamento com pais e familiares em tempo recorde. É importante lembrar que a forma como cada escola e cada família responderá a essa situação adversa também se relaciona com o contexto de desigualdade social ao qual estão submetidas.


No entanto, é preciso lembrar que o reconhecimento do ambiente familiar como elemento importante para o desenvolvimento integral deve ser feito em qualquer tempo, assim como a aproximação da família e da escola precisa ser estimulada de forma contínua.


O infográfico abaixo destaca algumas estratégias que contribuem para a participação das famílias na educação:

Desenvolvimento integral e neurociência

Para a neurocientista Adele Diamond, da Universidade de British Columbia (Canadá), que participou em 2019 do Ciclo de Debates em Gestão Educacional, um olhar mais amplo para desenvolvimento é o segredo para a conquista de habilidades fundamentais.


Além disso, Adele aponta que atividades culturais – como cantar, dançar, ouvir e contar histórias – são propostas que treinam, desafiam e apoiam as funções executivas cerebrais. No vídeo a seguir, a neurocientista explica o que são as funções executivas do cérebro:

Clique aqui e saiba mais

Abordando as atividades socioculturais enfatizadas por Adele Diamond, o estudo do Itaú Social, desenvolvido pelo economista e professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra) Flavio Comim, apresentou a metanálise “Artes e Esportes: relação com o desenvolvimento humano integral”.


O trabalho examinou e sistematizou o que a literatura contemporânea especializada em educação tem dito sobre a relação entre artes, esportes e desenvolvimento humano integral, com foco em crianças do Ensino Fundamental.


Acesse a pesquisa completa

Jogos e brincadeiras também contribuem para o desenvolvimento de diferentes habilidades das crianças. A pesquisa Artes e Esportes enfatiza que: "Jogos cooperativos ou jogos de improvisação estimulam as crianças a abrirem mão de sua individualidade para a obtenção de resultados coletivos”. Confira o que tem a dizer Lino de Macedo, professor emérito da Universidade de São Paulo e psicólogo especializado em Jean Piaget.

Perguntas e respostas sobre jogos e aprendizagem

Atuação do Itaú Social

O Itaú Social tem uma longa trajetória de atuação, tendo como eixo norteador o desenvolvimento integral e sua interface com os diversos temas da educação. Ao lado de instituições como o CENPEC, Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, parceiro no Prêmio Itaú-UNICEF desde 1995, e o Centro de Referência para Educação Integral, desde 2013, entre outros, desenvolvemos diversas iniciativas que contribuem para o amadurecimento do campo no Brasil. Conheça algumas dessas iniciativas:

1995

Prêmio Itaú-UNICEF

(programa pioneiro de fomento à Educação Integral, que inclui parcerias entre escolas e organizações da sociedade civil.))

2004
2005
2007
2010
2011
2013
2014
2015
2017
2019
2019

O papel das Organizações da Sociedade Civil

Não é por acaso que o primeiro programa realizado pelo Itaú Social em seu histórico de atuação foi o Prêmio Itaú-UNICEF, dedicado ao reconhecimento e fomento de Organizações da Sociedade Civil (OSCs) que trabalham para a promoção do desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. Tendo como eixo central a elaboração de metodologias que considerem os saberes dos territórios em que estão inseridas, as OSCs têm um papel fundamental na oferta de atividades de Educação Integral e na composição de políticas públicas intersetoriais dedicadas a esta temática.


O Projeto Matéria Rima foi um dos contemplados pelo Prêmio Itaú-UNICEF em 2018. O projeto desenvolve, em Diadema/ São Paulo, oficinas de dança e canto para alunos, estimulando o aprendizado das disciplinas ensinadas em sala de aula por meio da música e da cultura do hip hop. Veja o relato de quem conhece de perto o projeto:

Com a palavra: o educador

Com a palavra: os jovens

O programa Redes de Territórios Educativos promove assessoria a Organizações da Sociedade Civil (OSCs) na elaboração e implementação de estratégias de educação integral. As OSCs são estimuladas a atuar de forma articulada, criando redes capazes de ampliar a oferta de ações para aumentar as oportunidades de aprendizagem dos estudantes, em especial daqueles socialmente vulneráveis.


Em 2019, as redes promoveram seus seminários anuais e contaram com a presença de Adele Diamond. Acompanhe os relatos de quem participou dos seminários:

Práticas educativas

O Polo, nosso ambiente de formação, reúne conteúdos que podem ser acessados de qualquer lugar. Clique e conheça:


Seleção de conteúdos formativos do Polo

Diante do novo cenário, o Itaú Social tem lançado novas iniciativas e revisto ações para fortalecer a comunidade educativa e apoiar a sociedade no combate ao Coronavírus.

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